INTERNACIONAL

Decreto de Biden abre as portas da liberdade religiosa à “identidade de gênero” e “orientação sexual”

O pastor Robert Jeffress alertou sobre possível perseguição do governo e sinais dos tempos.
22/01/2021 - Por Michael Caceres -– Gospel Prime

Um dos primeiros decretos assinados por Joseph Biden, horas depois de ter afirmado no seu discurso inaugural que queria ajudar a resolver as divisões políticas e sociais nos Estados Unidos, estabelece que, para efeitos legais, qualquer referência na lei federal a “sexo” e discriminação sexual” passa a incluir as categorias de “identidade de gênero” e de “orientação sexual”.

Desta forma, o Presidente altera toda a legislação que tinha, até aqui, por intenção de proteger os cidadãos de discriminação pelo fato de serem homens ou mulheres, passando a dar proteção também a todos os que se identificam com um “gênero” diferente do seu sexo biológico ou que se sentem discriminados por causa da sua orientação sexual.

Embora esperado, o decreto foi recebido com alarme por conservadores, que temem o que um descreve como um “tsunami” de problemas, desde liberdade religiosa até ao desporto feminino.

A proibição de discriminação por “identidade de gênero” obriga, entre outras coisas, as escolas a permitir que um aluno utilize os balneários do sexo com o qual se identifica, independentemente da sua biologia, ou que um adulto possa usar banheiros do sexo oposto em locais públicos, obrigando ainda as organizações desportivas a deixar os atletas participarem no escalão do sexo com o qual se dizem identificar.

“Não estamos no campo das hipóteses, isto já está acontecendo”, diz John Bursch, da organização Alliance Defending Freedom, que dá apoio jurídico em casos de liberdade religiosa e de expressão. “Uma das nossas clientes, a Chelsea Mitchell, perdeu quatro títulos estaduais para um rapaz que compete na divisão das rapazes. Isto não é igualdade nem é progresso, é antimulher”, afirma, em declarações à Catholic News Agency, dos Estados Unidos.

Mas a ameaça para as mulheres chega mais longe do que o campo desportivo. “A cidade de Anchorage, no Alasca, insistiu que um centro de acolhimento para mulheres deixasse um homem que se identifica como mulher dormir ao lado de mulheres que foram violadas, traficadas e abusadas. Tivemos de ir a tribunal para proteger o direito do abrigo a não ter homens biológicos no mesmo espaço que aquelas mulheres abusadas."

“A redefinição de ‘sexo’ para significar ‘orientação sexual e identidade de gênero’ não é igualdade nem progresso. Isso não é discriminação, é biologia. Quando a lei não respeita as diferenças entre homens e mulheres gera-se o caos e isso ameaça as mulheres e as meninas”, conclui Bursch.

Outro problema que se vê com a lei prende-se com a liberdade religiosa, não só para organizações religiosas que agora poderão ser obrigadas pelo Governo Federal a violar as suas consciências e ditames religiosos sob pena de perder apoios ou ter de fechar portas, mas também para trabalhadores que têm objeções de consciência ou de base religiosa em assuntos como o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já houve vários casos de homens e mulheres que perderam empregos no setor privado por se oporem ao casamento homossexual, mas agora passariam a estar na mira da legislação federal também.

“No fundo, isto diz às pessoas religiosas que as suas opiniões já não são bem-vindas na praça publica”, explica Bursch.

Mary Rice Hasson, investigadora na Ethics & Public Policy Center, lamenta o decreto de Biden que, considera, assenta “na mentira de que a ‘identidade de gênero’ permite a uma pessoa do sexo masculino ‘ser’ uma mulher” e contrasta a tomada de posição do novo Presidente com as suas próprias palavras, no seu discurso de tomada de posse, em que citou Santo Agostinho sobre a necessidade de a unidade se basear na verdade.

Outros críticos dizem que com a nova lei alguém que tenta dissuadir um adolescente que diz identificar-se com o sexo oposto de tomar medicamentos hormonais ou sujeitar-se a cirurgias irreparáveis poderá incorrer num crime e que os planos e seguros de saúde passarão a ser obrigados a financiar cirurgias de “mudança de sexo”, entre outros. Da mesma forma, hospitais, mesmo que sejam privados e de inspiração religiosa, poderão ser obrigados a fazer essas mesmas cirurgias.

“Nenhuma criança deve ser sujeitada à mentira de que está ‘presa no corpo errado’ e os adultos não os devem encher de medicamentos que impeçam a puberdade e hormonas do sexo oposto”, afirma Ryan Anderson, da Heritage Foundation e autor do livro “When Harry Became Sally: Responding to the Transgender Moment”, também em declarações à CNA.

No seu decreto, Biden afirma estar baseado numa recente posição do Supremo Tribunal que alargava a proteção laboral a casos de identidade de gênero e orientação sexual, mas os críticos lembram que essa decisão tinha como objetivo evitar que as pessoas pudessem ser despedidas unicamente por terem disforia de gênero ou serem homossexuais, e que o decreto de Biden vai muito mais longe.

Pastor diz para a Igreja se preparar para aumento da perseguição sob o comando de Biden

O pastor líder da Primeira Igreja Batista de Dallas, uma mega-igreja, emitiu um aviso sobre uma “crescente perseguição” que a Igreja terá de enfrentar durante a administração de Biden. Ele alertou principalmente sobre uma possível “restrição em nossa capacidade” de ensinar a Palavra de Deus “sem consequências”.

Robert Jeffress proferiu o sermão no domingo, lembrando que o livro de Mateus, no Novo Testamento, fala como, nos últimos dias, “tempos selvagens virão quando as pessoas rejeitarem restrição moral e a sociedade começa a se desintegrar”.

“Você vê isso ao seu redor – seja em relação à fluidez de gênero, casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto irrestrito. Todas essas coisas são o resultado de uma sociedade que se livrou das restrições de Deus”, disse Jeffress ao comentar uma pergunta sobre o tema.

O pastor constatou que “coisas indizíveis” que antes eram condenadas pela sociedade agora são “celebradas”, acrescentando que a Igreja poderá ter problemas ao “se recusar a participar da celebração da imoralidade e da impiedade”.

“Se você tem a cultura que celebra enquanto a Igreja condena, sabe o que isso produz? Produz atrito”, explicou o pregador conservador de 65 anos. “Vai haver pressão sempre que a Igreja condenar o que a sociedade está celebrando. E acredito que é isso que veremos acontecer muito, muito rapidamente nos próximos quatro anos”, continuou.

Jeffress apontou a tendência de o governo do democrata Joe Biden promover “o direito das pessoas de escolher seu próprio gênero e escolher o gênero de seus filhos”. Ele também disse que haverá perseguição do governo contra “organizações que se recusam a celebrar sua visão expansiva do casamento”.

“Então, quando você tem um governo, um governo, que está celebrando o que Deus condenou, e a Igreja condenando o que eles estão celebrando, senhoras e senhores, haverá atrito”, repetiu ele. “Vai haver pressão. Haverá perseguição”, pontuou.

“Precisamos estar prontos para o fato de que haverá pressão, pressão governamental, para restringir nossa capacidade de pregar e ensinar as verdades eternas da palavra de Deus sem consequências”, continuou ele.

Entenda a diferença entre sexo biológico, gênero e orientação sexual
Muita gente pode confundir gênero, sexo biológico e orientação sexual, mas os três são coisas diferentes. Por isso, nenhum dos três aspectos deveria ser sobreposto ao outro para definir uma pessoa, uma vez que todos eles fazem parte da sexualidade humana.
O psiquiatra Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria da USP, e o psicólogo Breno Rosostolato, especialista em gênero, explicam a diferença:
Sexo biológico
É o aspecto físico do ser humano, que está diretamente relacionado à presença de um pênis ou uma vagina. Pediatras declaram, no momento do nascimento de um bebê, se ele é macho ou fêmea, levando em consideração a leitura visual do corpo da criança.
Gênero
Por muito tempo, "gênero" foi usado de forma errada como sinônimo de "sexo". No entanto, gênero é uma construção sociocultural sobre o que se entende o que é masculinidade e feminilidade. O conceito do que "é de menina ou de menino" surge na união de diversos fatores que determinam como cada gênero deve falar, deve se portar, por exemplo. No entanto, por ser uma leitura social, gênero é mutável.
Orientação sexual
Não tem absolutamente nada a ver com os dois termos anteriores, mas ainda assim acaba sendo confundido com eles. Orientação sexual é como uma pessoa compreende e direciona o seu desejo sexual. Se é por um homem, uma mulher, por ambos ou para outras identidades de gênero. O importante é entender que a orientação sexual não tem nada a ver com o gênero da pessoa. Por exemplo, um homem transgênico (aqui estamos falando de identidade de gênero) pode se sentir atraído por outros homens -- esta é a orientação sexual dele. Neste caso, ele é homossexual.